GAIBÉUS – a escrita contra a sujeição

<font color=0094E0>Um épico que inaugura o «nós» no processo narrativo</font>

Domingos Lobo
Acabo de reler Gaibéus, de Alves Redol, numa edição dos «Livros de Bolso Europa-América», de 1971. Estes livrinhos, os primeiros do género dados à estampa entre nós, constituíram-se uma das mais importantes colecções de grandes textos de que este é o número 11, revisto por Redol e com uma extensa e esclarecedora nota introdutória de sua lavra sobre os seus métodos de escrita e da iniciação no ofício de «aprendiz de feiticeiro» e das condições objectivas que a essa tarefa o conduziram.
««Do alto Ribatejo e da Beira Baixa
eles descem às lezírias pelas mondas
e ceifas
gaibéus lhes chamam.»

Significativa, ou não, dos propósitos editoriais dos seus responsáveis, esta colecção, então dirigida por Lyon de Castro, iniciou-se com outro dos títulos canónicos do nosso neo-realismo:
Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes.
Acabada a tarefa de reler (tarefa que me deu um redobrado prazer ao penetrar o sensitivo verbo de Redol, ao redescobrir-lhe o labor narrativo, o fulgor raro de uma língua que os anos não enrugaram e no qual descubro, tantos lustros volvidos, a essência perdida das raízes modulares da fala dos povos que habitam a extensa planície que o Tejo bordeja) o título inaugural do realismo de «rosto humano» (na sua primeira e mais fecunda fase), eis-me de pausa e alinhavo de notas. Ligo o televisor. Na Sic-Notícias, alinham os créditos finais os elementos que compõem o ramalhete do programa O Eixo do Mal. Trata-se de um programa que se pretende equidistante da realidade política que tenta analisar, entre o trejeito modernaço e a transgressão pacóvia, mas onde os quatro «comentadores de serviço» se encontram, com superficiais diferenças, claramente alinhados com os poderes que tentam, com artifícios matreiros, beliscar. Peroravam as doutas criaturas sobre as comemorações (?) dos 20 anos da «queda do muro». Pretexto, mais um, que a direita serôdia vem engendrando sempre que lhe interessa destilar veneno sobre os trabalhadores, seus representantes mais consequentes e conquistas históricas. Um dos cavalheiros da tertúlia, criatura bojuda, olhar de rebelde amestrado, voz em falsete troando em incontinente agudo, lia parte de um comunicado do PCP sobre o significado da Revolução de Outubro e da importância histórica que a mesma teve para a luta de libertação dos povos. O homem perdia-se de brios, espumava, lançava impropérios contra os comunistas num tom de feroz alucinação, o agudo da voz metálica, em desmandado furor, feria a calma da noite morrinhenta. O responsável pelo inenarrável programa, visivelmente incomodado com o insólito da verrina, achou que a coisa extravasava os limites da decência e deu por findo o conclave destas tristes comadres de chá, bolinhos e rebeldia pífia. Mas a perfídia havia, mais uma vez, acontecido.
Este episódio que poderá parecer, a uma primeira leitura, encaixada a despropósito, quando este texto se pretende evocativo de um dos romances lapidares do movimento estético e literário que teve na sua génese o contar das vivências, das lutas e das dores dos humilhados e ofendidos, dos «homens que acrescentavam ainda mais realidade ao real», no dizer de Óscar Lopes, talvez o não seja de todo, agora que se cumprem 70 anos sobre a 1.ª Edição de Gaibéus. Tal como em 1939, embora escudados por uma subtil camada de verniz cosmopolita, sob a égide do neoliberalismo, continuamos a ter à liça os Agostinho Serra, senhores de poder e mando, os Francisco Descalço, subalternos que lhes aparam as migalhas e estendem o tapete para que o esbulho e as humilhações quotidianas permaneçam intactas e se aprofundem. Para tanto, basta que alguma coisa mude, como dizia o senhor Giuseppe Tomasi di Lampedusa (um cenário minimal, um leve odor de Calvin Klein, um humor rançoso) para que o essencial perdure.
Gaibéus mostra-nos um Alves Redol jovem que se lançava à tarefa de nos contar a saga desse rancho de homens e mulheres que das beiras desciam, no final do Verão, aos vastos campos do Ribatejo para as tarefas de ceifa dos arrozais, mas, apesar de um romance primeiro e de juventude, este texto revela-nos um autor já destro no manejo da língua, senhor de um estilo seguro, de uma peculiar forma de contar que percorreria, num labor incomum, (Alves Redol teve vida breve, vindo a falecer com apenas 58 anos) cerca de 34 títulos, abarcando o conto, o romance, o teatro e as estórias para a infância. Esse trabalho de contínuo e apurado exercício ficcional, culminaria com a publicação, em 1961, daquele que a crítica considera o seu melhor romance e uma das obras-primas do neo-realismo: Barranco de Cegos.
O autor era, aos 28 anos, um escritor já de prosa enxuta, rodada no conto, na crónica e na escrita jornalística, trazendo no bornal das experiências adolescentes uma breve e pouco frutuosa passagem por Angola, conhecedor das gentes e da paisagem ribatejanas, das grandezas e misérias da lezíria de entre Tejo, Sorraia e Almansor, observador atento e estudioso (veja-se esse incontornável ensaio de etnografia que é Glória - Uma Aldeia do Ribatejo, no qual o ficcionista não está ausente) dos hábitos e tarefas do seu povo, desse povo da borda dágua ao qual orgulhosamente afirmava pertencer.
Das notas encontradas no seu espólio, consta uma sintomática reflexão sobre os ofícios de escritor, ofício que ele sempre exerceu com coragem, luta e desafio, não desligando essa tarefa das suas actividades políticas e cívicas: «Se um dia alguém me perguntasse que aprendizagem deveria um jovem fazer para chegar a romancista, se o ofício se ensinasse, eu diria que enquanto a vida lhe não desse todas as voltas e reviravoltas, amores, sofrimentos, repúdios, sonhos, frustrações, equívocos, etc., etc., (...) seria avisado que o mandasse ensinar a sapateiro, não para saber deitar tombas e meias solas, porque nem para tanto ele usufruirá, às vezes, com a escrita, mas para que ganhasse o hábito de padecer bem, amarrado ao assunto durante largos anos, antes que provasse o paladar gostoso de algumas horas de pleno prazer.» E esse prazer teve-o Redol em muitos dos seus textos, prazer que, junto com a indignada revolta que muitas das suas páginas ainda hoje nos provoca, com ele partilhamos e sentimos ao lê-lo.
Gaibéus, o primeiro romance de Redol, é um marco histórico no movimento neo-realista, dado que iniciador de uma corrente literária sem a qual dificilmente conseguiríamos entender o contexto sócio-económico vivido durante o regime fascista e as lutas a que essa especificidade social e histórica deu origem, mas inaugura igualmente um novo modo de contar, de olhar o real, embora nestas páginas perpasse, por vezes, indelével, o ofício de repórter que atenta aos pormenores da paisagem, aos humores do tempo e da natureza, detectável sobretudo no capítulo inicial. Pormenores que substantivam o estilo ao invés de o tornar opaco. Em Gaibéus, Redol introduz, com inteligente parcimónia, um processo narrativo que só encontraremos muito mais tarde na novelística portuguesa: a elipse, a repetição frásica (e, neste particular, os versos das cantigas que criam, na sua repetição sincrónica ao longo do texto, atmosferas a um tempo distanciadoras e dramáticas) e a heterodiegese.
E é este sentido de espaço amplo das personagens que entram na narrativa, a pluralidade de vozes que a enformam, que tornam Gaibéus uma epopeia na qual o herói é o corpo colectivo, esse punhado de homens e mulheres que de sol a sol na campina buscavam o sustento para os dias amargos do Inverno que se aproximava. E, se nesse corpo heterogéneo, apenas os sonhos esparsos do «ceifeiro rebelde» parecem entender a real dimensão do momento e da exploração de que são alvo os alugados, se apenas ele tem essa lucidez e essa isolada angústia, não é menos verdade que os outros, embora de forma menos evidente e dialéctica, sentem, cada um a seu modo, na pele e na carne a profundidade dessa exploração e da sujeição que os oprime: «aquelas, as éguas apeadas, estão com´à gente...». E sentem, mesmo dobrados sobre a terra, olhos cegos de tanta seara por ceifar, que «na crista das marachas os capatazes espiam sempre» e que o destino é coisa difícil de torcer, porque «a ceifa não pára, não pára nunca», metáfora de quem só a terra abarca no círculo do olhar – são batalhas sem fim, a da seara e a do destino, que não impossíveis de vencer. Até o céu, que tanto pode suspender um sol abrasador (áuga, áuga, pedem os alugados, gargantas secas de sol e suor), como trazer borrasca no capricho cinzento das nuvens. E, a chuva, obriga a paragem nas tarefas da ceifa e logo a menos jorna, menos dinheiro nos bolsos minguados para o regresso à leira natal e aos rigores invernais. Daí que os gaibéus prefiram sofrer a canícula e a secura das gargantas a rebentar de sezões (áuga, áuga) do que perderem um dia curvados, de sol a sol, na ceifa e na debulha.
Óscar Lopes, refere num estudo que dedicou a este romance de Redol, que o autor não prestou particular atenção, como faria em textos posteriores, «à dialéctica pessoal da conduta, à entredeterminação de uma personagem e da sua história», opondo-se, desse modo, ao personalismo literário presencista. Embora concordando com o mestre, entendo que nessa particularidade reside ainda hoje a importância dos modos narrativos experimentados por Redol e a singularidade semântica e de corpo orgânico deste modelar romance. Neste texto, o sujeito, é o corpo colectivo, o rancho, essa anónima força que apenas a espaços se individualiza para introduzir novos elementos de unidade ficcional. Daí que o patrão, Agostinho Serra, seja apenas um esboço, um traço de pena («não tenho medo que me não gramem», diz ele e basta) que a Rosa do rancho do Francisco Descalço, depois de violada pelo patrão se negue a regressar à aldeia, se transforme em Balbina e se perca na Rua Pedro Dias, que o Cadete, o Pananão, o Passarinho, Fomelas e o Marrafa, sonhem com afagos de mulheres, ladrões heróicos e fugas para o Brasil, que «o ceifeiro rebelde» parta com o bornal às costas à procura de outro poiso para o corpo e outra sorte como maltês que é; rabezanos e gaibéus são apenas a mancha escura, anódina, dobrada na campina, dado que ali «não há homens, só máquinas» e o dinheiro que assim os obriga não é mais afinal «que a apoteose da incerteza do ano», todos «ferrados com o nove, quem padece é o pobre», atados ao mesmo chão. É a opressão que os irmana e torna corpo, que lhes dá o sentido de gesta e de colectivo e esse sentimento abstracto, mas fundo, da opressão, ainda que o não saibam ainda expressar em acto, (o único dentre eles que o sabe, partirá solitário pelos caminhos do mundo) conduzi-los-á, em Maio e Junho de 1962, à luta, à greve e às manifestações pelo aumento dos salários e pela jornada de trabalho de 8 horas.
Regresso a Óscar Lopes e ao seu texto(1) sobre Gaibéus para referir uma passagem com a qual não poderia estar mais de acordo: «o protagonista da acção é claramente colectivo, como acontece com o coro da mais antiga tragédia ática». É este aspecto, o da introdução na estrutura ficcional da personagem num ser colectivo, que pela vez primeira torna consequente e estrutural a estética neo-realista. Embora o realismo social já tivesse cultores de mérito, reconhecidos e influentes (Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro, p. ex.) é com este romance que o neo-realismo se funda e vem consignar um dos mais profícuos e exaltantes movimentos literários de todo o século XX português.
Augusto da Costa Dias afirma, sobre as origens do movimento:(2) «O neo-realismo é, à nascença, contemporâneo dos primeiros esforços para a reorganização do Partido. Surge como sua expressão na batalha cultural e ideológica, como oposição fundamental à ideologia dominante das classes dominantes fascistas, ao totalitarismo da sua escolástica medieval, ao seu obscurantismo e ao obscurantismo raso em que embalsamava o povo, à proibição sistemática das realidades portuguesas das quais fazia uma antologia escolhida e folclórica para tapar a cloaca das suas devastações (...)»
Com Gaibéus inicia Alves Redol «o ciclo da ficção temática ribatejana», a que se seguiriam Marés, Avieiros e Fanga.
Alves Redol insere-se, a partir dos anos trinta, na luta clandestina antifascista. É preso em 1944 e, de novo, em 1963. Gaibéus é apreendido pela Pide, em 1940. O regime exerce várias pressões sobre as editoras que publicam os seus livros e submete os seus originais a censura prévia. É o único escritor português a sofrer semelhante humilhação.
O texto de Costa Dias remete-me novamente para o episódio que referi no início desta crónica. Estamos a viver, como nos anos 1940, uma feroz luta ideológica por parte dos média ditos de referência, patronato e subalternos de espinhaço torcido. Neste contexto histórico, faz todo o sentido regressarmos ao verbo libertário de Gaibéus, de Seara de Vento, de Esteiros, de Quando os Lobos Uivam, de Até Amanhã, Camaradas, de Casa na Duna, de Bastardos do Sol, de Viúvas de Vivos, de Levantado do Chão. São património nosso, ameias nossas, do povo que somos e nesse chão prenhe das palavras nos reconhecemos; o nosso mais perene «lugar do ser».
Enquanto nós referimos, com sentido orgulho, a efeméride de um livro que traça o percurso colectivo rumo à dignidade da nossa condição, os próceres da direita comprazem-se em rituais de afronta a pretexto de um muro que a sua usura obrigou a erguer, esquecendo outros que entretanto construíram para separar povos e negar direitos. A incontinência verbal com que nos invectivam tenta, em desespero, que nos demitamos de lutar, de exigir, de impedir o retorno aos dias azedos vividos por homens e mulheres que a escrita certeira e luminosa de Redol há 70 anos, com corajosa argúcia, denunciou. Ao evocarmos um livro, este livro, e o seu singular significado, estamos a afirmar o repúdio por um tempo em que os homens traziam as gargantas secas de gritos, de fome, de febres e pediam em vão «áuga, áuga» e só o eco surdo da lezíria lhes devolvia o rogo. Um tempo de cujo modelo de sociedade que esses senhores preconizam é responsável.
E não esqueçamos, como o próprio Redol afirma no prefácio de Gaibéus, que este romance «nasceu quando muitos morriam por nós». O nós que ele próprio inaugura na sua estrutura narrativa.

___________
(1) GaibéusÓscar Lopesuma leitura cinquentenária – Cifras do Tempo, Caminho – Lisboa, 1990.
(2) Augusto da Costa DiasLiteratura e Luta de Classes – Ed. Estampa – Lisboa 1975.


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